terça-feira, 28 de junho de 2011

Enclave

 Serpenteando
 no peso das horas
 sou leve em chegar
 à alma do mundo -
 seu enclave de demoras

domingo, 26 de junho de 2011

Verão

Gira o sol
abrindo as camas do verão
nas searas onde descanso
deitam-se as papoilas pelo chão

basta-me o sol
que aqui ficou
numa tarde de oração
deixou-me as estrelas
espigas do céu
e a lua trouxe-me o seu pão

lavra o sol
nos campos sem sossego
flores tingidas de amarelo
coroas sopradas por um vento cego

vibra-me o sol
no seu balanço
esvai-se o dia
e numa brisa morna
curvam os girassóis enlouquecidos
no deleite da minha ousadia

sábado, 25 de junho de 2011

Reveses

Se te incomoda a rotina
mas nela te acomodas
confortável no seu rumo
previsível que te agrada

pareces querer dizer:
não mudes nada!
mas ao revés alimentas
voráz uma ilusão
de que a vida é insatisfação

quem te disse isso?
a vida é feita de reveses
a felicidade não se encontra
nem se compra
sente-se poucas algumas ou muitas vezes

deixa que te incomode esse vento
inquieto por entre as dunas
incertas do que és
vive como alpinista a tua escalada
subindo a montanha e atento
à queda que devolverá os teus pés

e se ainda assim duvidares
do chão que pisas passageiro
deixa que as sombras molestem
o teu pedaço de luz revelada
e sê como o intrépido pássaro
que no seu vôo cruza um candeeiro
e pousa na lâmpada avariada

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Fadas são enigmas

Nasceu no tempo das fadas
menina meiga e subtil
a todos encantava

cresceu e com ela alada
é a sedução
e é arma que atinge qualquer coração
cresceu e agora
amigos e amigas são a sua perdição

talentosa
seus talentos são concêntricos
circundam os afectos
e os afectos são elipses
escondem mistérios que todos têm
ígneos abissais ou difusos

e ela menina doce fada
na verdade é bem plutónica
(tem a marca da família)
já se vai reconhecendo em crises
assustaram-na seus poderes
e começou a treinar enigmas


                               A minha fadinha fez hoje 14 anos. Parabéns, Mariana.
                                                   

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Clemente

Uma semente na dúvida
que é viver

Um tronco - pilar
de rectidão e coragem em amar

Raízes íntegras em ser
e fazer

Ramos que protestam
a injustiça de ver
ao redor o ter e o não ter

Folhas caducas
de ilusões que se vão

Folhas perenes
de leal dedicação


Obrigada meu Pai
pelo abrigo
pelo abraço
por tudo o que me ensinaste e amaste nesta vida

             Parabéns pelos 74 anos celebrados a 21 de Junho






















   

terça-feira, 21 de junho de 2011

Litha

Ela abraçou seus girassois luminosa e junina
caminhou pelos campos a celebrar a vida
no dia mais longo o deus partiu em busca do verão
ela sentiu o seu beijo quente com sabor a canela
o gargalhar das fadas nas noites perfumadas de alecrim
e então também a natureza ofereceu suas frutas frescas
seu pão e esperança o doce vinho e o poder das ervas mágicas


domingo, 19 de junho de 2011

Poética pessoana: uma interpretação anagógica

Continuando com uma interpretação anagógica da poética pessoana, convém referir
que aqui a proposta não é a de analisar os mapas astrológicos de cada um dos heterónimos
e, consequentemente, estabelecer considerações acerca dos seus perfis psicológicos e suas
biografias, mas sim, centrando-nos na obra poética de cada um deles, tentar uma anagogia
(do grego anagogé ou elevação, eram festas dedicadas à sucessão das quatro estações, que
celebravam a partida das divindades e o regresso às origens) da sua poesia, viajando através
desses grandes arcanos psíquicos e estéticos que correspondem aos arquétipos dos quatro
elementos - terra, água, ar e fogo - a que Pessoa deu expressão, parcelarmente e
autonomamente, através das suas principais projecções psicológico-poéticas
conotadas com a tradicional doutrina pré-socrática.

Claro que Pessoa, conhecedor e praticante da astrologia ocidental, atribuíu a cada um dos
heterónimos um mapa astrológico preciso, em relação aos quais, apenas alguns dos seus
significantes confluem com o simbolismo desta interpretação anagógica ( por exemplo, a
influência de uma lua escorpiónica em Álvaro de Campos, a ênfase no elemento ar dado
pela lua e pelo ascendente em Ricardo Reis, um saturno angular em Alberto Caeiro...) ela
sim, centrada sobre a produção e mensagem poética de cada um deles.

E esta viagem começa com o iniciador do ciclo das operações intracisivas e poético-alquímicas,
o Mestre Alberto Caeiro, poeta da terra, da realidade absoluta da terra, é o poeta com a
imaginação da terra, sem outra do que a sua exterioridade, vendo apenas com os sentidos e com a
emoção um mundo sem transcendência (António Quadros, Fernando Pessoa - Vida, Personalidade e Génio).


Basta existir para se ser completo (Alberto Caeiro)


O meu olhar é nítido como um girassol.
  Tenho o costume de andar pelas estradas
  Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sem ter o pasmo essencial
 Que tem uma criança se ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
  Para a eterna novidade do Mundo...

Creio no Mundo como num malmequer
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
 O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
       Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
  Nem sabe porque ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
   E a única inocência é não pensar...

   (Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos)


Prosseguindo nas suas provas iniciáticas, do poeta das sensações que é Alberto Caeiro, Pessoa detém-se na dolorosa e sublimatória expressão de Álvaro de Campos, poeta da água, para seguidamente  se desprender no poeta do ar, Ricardo Reis, o poeta neoclássico da anamnese, da fluidez melancólica do tempo, da audição de vozes antiquíssimas, da música secreta dos deuses pagãos, flauta de Pan, cantos de Horácio, o poeta do ritmo e do rito dos mitos helénicos.


     E só um momento nos sentimos deuses imortais pela calma que vestimos
(Ricardo Reis)


Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és 
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
     Brilha, porque alta vive.

(Ricardo Reis, Odes)


Percorrendo a via crucis da alquimia do verbo como alquimia da psique, Pessoa chega ao elemento fogo através do poeta visionário e iniciático, mágico e místico, o poeta do conhecimento subtil, o poeta das últimas verdades, simbolizadas desde tempos imemorais pelas imagens do ígneo e do luminoso, o poeta da visão transcendental, que queima quando ilumina e porque ilumina.




                                   A Teosofia atrai-me por se parecer tanto com um "paganismo transcendental"
             (Fernando Pessoa, Cartas a Mário de Sá-Carneiro)


Ah, tudo é símbolo e analogia!
O vento que passa, a noite que esfria
São outra cousa que a noite e o vento - 
Sombras de vida e de pensamento.

Tudo que vemos é outra cousa.
A maré vasta, a maré ansiosa,
É o eco de outra maré que está
Onde é real o mundo que há.

Tudo o que temos é esquecimento.
A noite fria, o passar do vento
São sombras de mãos cujos gestos são
A ilusão mãe desta ilusão.


Encontramos em Fernando Pessoa, para além de um processo interior de analogia alquímica,  uma  identificação ou convergência, não só entre o inconsciente individual e o inconsciente colectivo, mas também, a um nível consciente, entre a sua poesia e a sua pátria. Recuperando lendas, tradições, iniciações e alquimias, o seu espiritualismo complexo assume vários mitos como o do Encoberto, tentando reconvergir elementos materiais ou físicos, psicológicos e, poderemos dizer, ontológicos na sua demanda pela Pedra Filosofal.  

                                                                         
No tempo e no espaço decorre a Matéria, só no tempo a Alma; no infinito puro, Deus.

   

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Fernando Pessoa

                                 Aconteceu-me do alto do infinito esta vida.

                                        
                                       Fernando Pessoa (13/06/1888 - 30/11/1935)


E o meu caso de amor com ele, bem antigo, anseia pela última obra, dedicada às suas incursões astrológicas - edição de Paulo Cardoso, astrólogo, com a colaboração de Jerónimo Pizarro, professor e investigador pessoano (Bertrand Editora).




Poeta fáustico, privilegiou o caminho alquímico entre as vias de obtenção de sabedoria, e os heterónimos são a expressão poética do múltiplo em si, projecção de uma iniciática e anagógica transmutação do ser.
António Quadros, em Fernando Pessoa - vida, personalidade e génio (Publicações Dom Quixote),tenta precisamente essa interpretação anagógica da poética pessoana, fazendo corresponder os heterónimos Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis e o próprio Pessoa - como autor dos poemas ocultistas e místicos, aos arquétipos da terra, da água, do ar e do fogo.

E dessa viagem pelo seu itinerário iniciático e alquímico, hoje a minha homenagem vai para o poeta mercurial e lunar Álvaro de Campos, o poeta da assunção do arquétipo da água, da vida primordial, da energia vital, das energias primitivas da raça e da tribo, das cintilações intuitivas e oníricas, o poeta do desejo, do inquieto e torrencial movimento incessante, o poeta do impulso de descoberta ou da possessio maris (António Quadros - Fernando Pessoa vida, personalidade e génio).



                                   

domingo, 12 de junho de 2011

Imprinting

Que assim seja: adormecendo
regresso a uma paisagem primordial
àquela viagem pela savana africana
com paragem numa fazenda
imensa de rituais coloniais
a povoar a minha inocência de criança

- Pai, levamos um leãozinho para casa?

paixão repentina por duas crias
sobreviventes a uma caçada

- Não, filha, eles vão crescer e voltam para a casa deles, na selva.

tristeza infiltrando o coração
o amor contrariado
e o princípio da sublimação: despertando
trago a selva inteira em palavras e imagens
a vencer a dor daquela miragem

e a perceber um final feliz:

- Então quero um gatinho, pai!

acertei
gatinho também é felino

sexta-feira, 10 de junho de 2011

O estado da nação

Camões, Portugal ... e a Senhora Europa

Tanto do meu estado me acho incerto,
Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
Sem causa, juntamente choro e rio;
O mundo todo abarco e nada aperto.

É tudo quanto sinto um desconcerto;
Da alma um fogo me sai, da vista um rio;
Agora espero, agora desconfio,
Agora desvario, agora acerto.

Estando em terra, chego ao Céu voando;
Numa hora acho mil anos, e é de jeito
Que em mil anos não posso achar uma hora.

Se me pergunta alguém porque assim ando,
respondo que não sei; porém suspeito
Que só porque vos vi, minha Senhora.

                     Luís de Camões

quinta-feira, 9 de junho de 2011

O Canto da Sereia

No mar
a sereia se cumpre
mulher e sonho

e o seu canto
não é triste embora chore
nas águas fundas onde se alisa
                                     a areia
todas as perdas
que o seu ser incompleto
confundiu
com os beijos de amores
                              distantes


quarta-feira, 8 de junho de 2011

Disruptivo

Sou carência
e tempestade
uma avalanche
que incomoda o teu sossego

nuvens densas
perturbação
perigo sem idade
de entender o pesadelo

contracorrente
emoção de despenhadeiro
vou caindo sobranceiro
a pedir o teu apego

reactivo
disruptivo
dá-me tu o meu limite
meu amparo e aconchego

                    Aos meus meninos (adolescentes e jovens) difíceis

domingo, 5 de junho de 2011

Memória Póstuma

Hoje que é esquecida
tua glória de ápice alcançada
o sol continua a aquecer a terra
ao ritmo das estações
e o manto da noite vai esfriando
esse secreto entendimento
dos ciclos desencontrados

A ti que chamaram doido
por desafiares marasmos
e ousares a travessia
a ti que chamaram santo
por te acostumares com o bem
e te separares dos impunes

Hoje será esquecida
essa glória
que aclamam os vaidosos
e somente
as sementes que plantaste
em cada dia que passou
fixarão
- seus frutos e flores -
lembranças na natureza

Tudo o resto
será poeira impertinente
para muitos um cadáver
que antes da agonia
se encosta ao teu ombro e dorme

E só tu sentirás a brisa
sussurrando no ouvido
que o amor está em toda a parte
e que o nome que te deste
se escreve com a palavra coragem